Requerimento Nº 1790/2016
Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais,
que seja transcrito nos Anais desta Casa Legislativa o texto “Dois tostões
irrelevantes sobre uma encruzilhada cabulosa”, do jornalista Ivan Moraes Filho.
Justificativa
Publicado no último dia 14 de março, o presente texto que ora solicito inclusão
nos Anais desta Casa, discorre sobre as manifestações ocorridas no último dia
13 de março. O jornalista Ivan Moraes Filho trás um relato lúcido, que reflete
o atual momento em que vivemos. Segue, in loco, o referido texto:
“Dois tostões irrelevantes sobre uma encruzilhada cabulosa
Um monte de gente brasileira foi às ruas no domingo 13 de março.
Um monte de gente mesmo. Talvez milhões.
Não foi, como alguns querem que a gente acredite, a maior manifestação popular
de todos os tempos.
Não foi nem a maior da década.
Mas foi grande. Convocada por segmentos de extrema direita e pelos partidos
políticos que fazem oposição ao governo; respaldada pela mídia comercial
(alguns repórteres referiram-se aos manifestantes na primeira pessoa do
plural); impulsionada pelos fatos (forjados ou não) da semana anterior.
Legítima. Aconteça o que acontecer, não se pode ignorar a quantidade de gente
que, por um ou outro motivo, resolver ir às ruas nesse dia que contou até com o
apoio de São Pedro: fez sol no Brasil inteiro.
Não estive presente, mas acompanhei horas de noticiário da televisão e diversos
relatos internéticos.
Em diversos vídeos publicados nas redes sociais, vi todo tipo de opinião.
Vi gente que pedia mais saúde, mais educação, mais moradia, mais respeito com
os quais concordo.
Também vi gente pedindo a pena de morte, chamando pobres de vagabundos, levando
o machismo às últimas consequências, sendo contra o bolsa família e demais
políticas sociais com os quais discordo frontalmente. Com esses, nem conversa.
Muitos contra a corrupção, assim, de uma forma bem geral. Com esses não
concordo por não focar. Como não conheço ninguém que seja abertamente a favor
da corrupção, protestar contra ela é tão eficaz como protestar contra o
câncer.
E outros um pouquinho mais específicos, contra Dilma, Lula e o PT. Com esses
não concordo por focar demais. Se é pra zerar o jogo, que todos os suspeitos
de qualquer coisa sejam investigados de acordo com o que se tem de justiça (com
todas as possíveis falhas) hoje em dia.
Mas foi a voz desses que a mídia tradicional escolheu para abrir suas matérias.
Isso quer dizer que, independente do que você foi fazer na rua, tá registrado
que você foi contra o PT, pedir o impítima de Dilma. Sem dados concretos para
me basear, arrisco dizer que (mesmo que entre outras coisas), quem esteve nos
protestos queria isso mesmo.
Curioso é que eu não vi, nem faixas ou mesmo em entrevistas na televisão,
nenhuma acusação específica sobre o que possa ser considerado o crime que irá
derrubar a presidenta. Sei que tem umas coisas sobre as contas da campanha,
outras sobre corrupção na Petrobrás no mandato anterior da presidenta (e dos
outros anteriores a ela). Nada que aparentemente já esteja julgado. Nada que
aparentemente justifique (no nosso marco legal atual) o impedimento de
manutenção do governo.
O esforço parece ser o de dizer que a manifestação do domingo legitima o
impítima. Não porque haja alguma nova denúncia ou uma mudança no rito legal.
Mas porque um bocado de gente quer que a presidenta saia do cargo.
Há uns quinze anos mais ou menos eu faço parte de grupos e movimentos que se
identificam com o que a gente chama de campo democrático progressista. Essa
rapaziada quer democracia real, em que gente vale mais do que dinheiro
(inclusive na eleição). Quer política sociais que tragam garantias de todos os
direitos: saúde, educação, comunicação, transporte, trabalho, etc. Quer uma
presença maior do Estado mediando relações de poder, controlado de perto por
uma sociedade civil informada e participativa. Quer garantias de liberdade e de
direitos iguais para todas as pessoas, reconhecendo que para isso acontecer é
preciso que existam políticas reparativas e ações afirmativas que possam fazer
com que segmentos historicamente excluídos da sociedade possam participar de
tudo de igual para igual.
Em todos esses anos, nunca nos calamos, embora nem sempre fôssemos ouvidos.
Essa turma, tenha certeza, passou as últimas décadas protestando por essas
coisas que acreditamos.
Reconhecemos os pequenos avanços dos governos petistas, mas criticamos a
obediência dessas administrações às mesmas estruturas de poder que atuam no
nosso país desde o tempo colonial. Por receio de um retrocesso (que é pior do
que andar devagar), muitos até foram às ruas defender a reeleição de Lula e de
Dilma. Só para ver, mais uma vez, o governo cerrando fileiras com o mercado,
patrocinando a mídia comercial, fechando a torneira da reforma agrária,
mantendo a política econômica que nunca desfavoreceu o sistema bancário.
Ou seja, a pessoa precisa ser muito ignorante ou muito liberal pra ver qualquer
traço de comunismo num governo que tem uma latifundiária à frente do Ministério
da Agricultura e que, até muito pouco tempo, um banqueiro no comando da
Economia.
Enquanto um governo de coalizão se acovarda quando mais precisa ser popular,
uma parcela relevante (até por um recorte de poder que demonstra uma
desigualdade ainda não resolvida) da sociedade supera a preguiça e vai às ruas
dizer tudo o que pensa. E percebendo que esse tudo o que pensa, em muitos
aspectos, é contra tudo isso que a gente tanto defende, o que fazer?
De um lado, um governo que não nos ouve. Do outro, uma multidão reverberando
(mesmo que não concorde) ideias tão reacionárias que dão vontade de formar fila
no consulado do Uruguai.
Como, então, se comportar nesse cenário?
Por convicção e (talvez) ingenuidade, não consigo agir de outra forma.
Permaneço em minhas lutas, exercitando a paciência histórica, junto a
companheiros e companheiras de caminhada.
Continuo querendo a reforma agrária, tributária, da mídia, da política.
Sonhando com um mundo sem preconceito, com mais oportunidades e liberdades para
todo mundo.
Denunciando os tropeços dos governos e buscando atuar para que sejam punidos e
não repetidos.
Rejeitando oportunismos de quem, de seu lugar de poder, sempre mamou nas tetas
da sociedade.
Insistindo que existem saídas democráticas e republicanas para esta crise
econômica, política e moral que vivemos nesses tempos.
Desejando que nos próximos anos se construam pontes e saídas mais humanas e
(ouso dizer) à esquerda não apenas para nosso país, mas para todo o planeta que
já não consegue esconder os destroços deixados por décadas de hegemonia
capitalista.
Não é uma saída pragmática.
Não sei se é o mais estratégico. Nem o mais correto.
Mas é o que o meu coração me obriga a fazer.”
Ivan Moraes Filho é um jornalista pernambucano, e escreve no blog virtual
Bodega. Perante o exposto, solicito aos meus nobres Pares que aprovem o pleito
em tela.