2016Requerimentos

Requerimento nº 1.790/2016

By 21/03/2016junho 26th, 2020No Comments

Requerimento Nº 1790/2016

Requeremos à Mesa, ouvido o Plenário e cumpridas as formalidades regimentais, 
que seja transcrito nos Anais desta Casa Legislativa o texto “Dois tostões 
irrelevantes sobre uma encruzilhada cabulosa”, do jornalista Ivan Moraes Filho.

 

Justificativa 

 

Publicado no último dia 14 de março, o presente texto que ora solicito inclusão 
nos Anais desta Casa, discorre sobre as manifestações ocorridas no último dia 
13 de março. O jornalista Ivan Moraes Filho trás um relato lúcido, que reflete 
o atual momento em que vivemos. Segue, in loco, o referido texto:


“Dois tostões irrelevantes sobre uma encruzilhada cabulosa

Um monte de gente brasileira foi às ruas no domingo 13 de março.
Um monte de gente mesmo. Talvez milhões.
Não foi, como alguns querem que a gente acredite, a maior manifestação popular 
de todos os tempos.
Não foi nem a maior da década.
Mas foi grande. Convocada por segmentos de extrema direita e pelos partidos 
políticos que fazem oposição ao governo; respaldada pela mídia comercial 
(alguns repórteres referiram-se aos manifestantes na primeira pessoa do 
plural); impulsionada pelos fatos (forjados ou não) da semana anterior. 
Legítima. Aconteça o que acontecer, não se pode ignorar a quantidade de gente 
que, por um ou outro motivo, resolver ir às ruas nesse dia que contou até com o 
apoio de São Pedro: fez sol no Brasil inteiro.
Não estive presente, mas acompanhei horas de noticiário da televisão e diversos 
relatos internéticos.
Em diversos vídeos publicados nas redes sociais, vi todo tipo de opinião.
Vi gente que pedia mais saúde, mais educação, mais moradia, mais respeito – com 
os quais concordo.
Também vi gente pedindo a pena de morte, chamando pobres de vagabundos, levando 
o machismo às últimas consequências, sendo contra o bolsa família e demais 
políticas sociais – com os quais discordo frontalmente. Com esses, nem conversa.
Muitos “contra a corrupção”, assim, de uma forma bem geral. Com esses não 
concordo por não focar. Como não conheço ninguém que seja abertamente “a favor 
da corrupção”, protestar contra ela é tão eficaz como protestar “contra o 
câncer”.
E outros um pouquinho mais específicos, “contra Dilma, Lula e o PT”. Com esses 
não concordo por focar demais. Se é pra ‘zerar o jogo’, que todos os suspeitos 
de qualquer coisa sejam investigados de acordo com o que se tem de justiça (com 
todas as possíveis falhas) hoje em dia.
Mas foi a voz desses que a mídia tradicional escolheu para abrir suas matérias. 
Isso quer dizer que, independente do que você foi fazer na rua, tá registrado 
que você foi “contra o PT, pedir o impítima de Dilma”. Sem dados concretos para 
me basear, arrisco dizer que (mesmo que entre outras coisas), quem esteve nos 
protestos queria isso mesmo.
Curioso é que eu não vi, nem faixas ou mesmo em entrevistas na televisão, 
nenhuma acusação específica sobre o que possa ser considerado “o crime” que irá 
derrubar a presidenta. Sei que tem umas coisas sobre as contas da campanha, 
outras sobre corrupção na Petrobrás no mandato anterior da presidenta (e dos 
outros anteriores a ela). Nada que aparentemente já esteja julgado. Nada que 
aparentemente justifique (no nosso marco legal atual) o impedimento de 
manutenção do governo.
O esforço parece ser o de dizer que a manifestação do domingo “legitima” o 
impítima. Não porque haja alguma nova denúncia ou uma mudança no rito legal. 
Mas porque “um bocado de gente quer” que a presidenta saia do cargo.
Há uns quinze anos mais ou menos eu faço parte de grupos e movimentos que se 
identificam com o que a gente chama de “campo democrático progressista”. Essa 
rapaziada quer democracia real, em que gente vale mais do que dinheiro 
(inclusive na eleição). Quer política sociais que tragam garantias de todos os 
direitos: saúde, educação, comunicação, transporte, trabalho, etc. Quer uma 
presença maior do Estado mediando relações de poder, controlado de perto por 
uma sociedade civil informada e participativa. Quer garantias de liberdade e de 
direitos iguais para todas as pessoas, reconhecendo que para isso acontecer é 
preciso que existam políticas reparativas e ações afirmativas que possam fazer 
com que segmentos historicamente excluídos da sociedade possam participar de 
tudo de igual para igual.
Em todos esses anos, nunca nos calamos, embora nem sempre fôssemos ouvidos.
Essa turma, tenha certeza, passou as últimas décadas protestando por essas 
coisas que acreditamos.
Reconhecemos os pequenos avanços dos governos petistas, mas criticamos a 
obediência dessas administrações às mesmas estruturas de poder que atuam no 
nosso país desde o tempo colonial. Por receio de um retrocesso (que é pior do 
que andar devagar), muitos até foram às ruas defender a reeleição de Lula e de 
Dilma. Só para ver, mais uma vez, o governo cerrando fileiras com o mercado, 
patrocinando a mídia comercial, fechando a torneira da reforma agrária, 
mantendo a política econômica que nunca desfavoreceu o sistema bancário.
Ou seja, a pessoa precisa ser muito ignorante ou muito liberal pra ver qualquer 
traço de comunismo num governo que tem uma latifundiária à frente do Ministério 
da Agricultura e que, até muito pouco tempo, um banqueiro no comando da 
Economia.
Enquanto um governo “de coalizão” se acovarda quando mais precisa ser popular, 
uma parcela relevante (até por um recorte de poder que demonstra uma 
desigualdade ainda não resolvida) da sociedade supera a preguiça e vai às ruas 
dizer tudo o que pensa. E percebendo que esse “tudo o que pensa”, em muitos 
aspectos, é contra tudo isso que a gente tanto defende, o que fazer?
De um lado, um governo que não nos ouve. Do outro, uma multidão reverberando 
(mesmo que não concorde) ideias tão reacionárias que dão vontade de formar fila 
no consulado do Uruguai.
Como, então, se comportar nesse cenário?
Por convicção e (talvez) ingenuidade, não consigo agir de outra forma.
Permaneço em minhas lutas, exercitando a paciência histórica, junto a 
companheiros e companheiras de caminhada.
Continuo querendo a reforma agrária, tributária, da mídia, da política.
Sonhando com um mundo sem preconceito, com mais oportunidades e liberdades para 
todo mundo.
Denunciando os tropeços dos governos e buscando atuar para que sejam punidos e 
não repetidos.
Rejeitando oportunismos de quem, de seu lugar de poder, sempre mamou nas tetas 
da sociedade.
Insistindo que existem saídas democráticas e republicanas para esta crise 
econômica, política e moral que vivemos nesses tempos.
Desejando que nos próximos anos se construam pontes e saídas mais humanas e 
(ouso dizer) à esquerda não apenas para nosso país, mas para todo o planeta que 
já não consegue esconder os destroços deixados por décadas de hegemonia 
capitalista.
Não é uma saída pragmática.
Não sei se é o mais estratégico. Nem o mais correto.
Mas é o que o meu coração me obriga a fazer.”

Ivan Moraes Filho é um jornalista pernambucano, e escreve no blog virtual 
Bodega. Perante o exposto, solicito aos meus nobres Pares que aprovem o pleito 
em tela.